MPF move ação para obrigar Governo Federal a retomar operações de proteção a áreas indígenas no PA
Garimpos ilegais avançam nas terras indígenas Munduruku e Sai Cinza e operações de proteção foram interrompidas, denuncia MPF.
Por G1 PA —
Belém
O Ministério Público Federal (MPF) apresentou recurso ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) para que o governo brasileiro seja obrigado a retomar, com urgência, as operações de combate contra garimpos ilegais nas terras indígenas Munduruku e Sai Cinza, no sudoeste do Pará. As operações foram interrompidas em agosto, após visita do ministro
As circunstâncias da interrupção incluem suspeitas de vazamento de
informações sigilosas e transporte de garimpeiros em aviões da Força Aérea
Brasileira e estão sendo investigadas em dois inquéritos do MPF. No recurso
apresentado ao Tribunal, o MPF pede que seja concedido prazo de apenas dez dias
para a retomada dos trabalhos e que seja emitida “ordem expressa para que os
ministérios da Defesa, do Meio Ambiente e quaisquer outros órgãos da União se
abstenham de praticar atos que possam prejudicar as fiscalizações, sob pena de
multa de R$ 1 milhão por cada ato indevido praticado”.
A fiscalização contra os garimpos ilegais nas terras do povo Munduruku
foi requisitada pelo MPF em ação judicial proposta na Justiça Federal em
Itaituba em junho deste ano.
A operação chamada de Pajé Brabo 2 foi planejada pelo Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e interrompida por ordem do Ministério da
Defesa, que impediu a decolagem das aeronaves dos fiscais na base da Serra do
Cachimbo no mesmo dia em que a operação deveria começar e logo após a ida do
ministro Ricardo Salles à região.
Assim que as ações de fiscalização foram paralisadas, o MPF peticionou à
Justiça Federal em Itaituba solicitando uma ordem judicial para a retomada do
trabalho dos fiscais. Em resposta a esse pedido, a Justiça concedeu prazo de 60
dias para apresentação de um plano de trabalho. É contra esse prazo excessivo
que o recurso do MPF responde, pedindo que ele seja reduzido de 60 para no
máximo dez dias.
A situação é tão grave que, de acordo com o recurso, se o ritmo de
invasão observado desde o início de 2020 prossiga sem interrupção, “é possível
que a situação entre em colapso e se torne irreversível antes mesmo do fim do
prazo fixado para elaboração do plano de trabalho”. “Aldeias que antes não
sofriam ameaça de invasores, agora já se veem encurraladas pelos garimpos, que
crescem e avançam no território indígena. Conforme já esclarecido, a atividade
garimpeira é extremamente prejudicial ao meio ambiente e ao modo de vida dos
indígenas, provocando o assoreamento e a contaminação por mercúrio dos rios e
subvertendo a lógica das relações sociais das aldeias, acirrando disputas entre
os próprios indígenas”, diz o agravo apresentado pelo MPF.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe),
citados no agravo ao Tribunal, as terras indígenas Munduruku e Sai Cinza
totalizam 60% dos alertas de desmatamento para garimpo em terras indígenas da
Amazônia, identificados no período de janeiro a abril de 2020. O recurso do MPF
menciona também a carta que recebeu assinada por lideranças indígenas Mundurukus,
em que alertam sobre a gravidade da situação nos rios Kaburuá, Kabitutu, Rio
das Tropas e Kadiriri.
“Foram relatados o aliciamento de lideranças, a facilitação de entrada
de balsas e escavadeiras nos rios, o conflito entre indígenas pró e contrários
ao garimpo ilegal, a desestruturação do sistema de organização política dos
indígenas, com a subjugação do poder tradicional pelo poder econômico, a
falsificação de autorizações de caciques e associações para promover o ingresso
de garimpeiros brancos na Terra Indígena, ameaças de morte aos indígenas
contrários ao garimpo, e até a destruição e apropriação, por parte de
garimpeiros brancos, de objetos arqueológicos do povo Munduruku”, diz o
recurso.
Para o MPF, a paralisação das operações de fiscalização sem nenhuma
razão jurídica demonstra que “a intenção da União, por meio de seus agentes
políticos, não é coibir a prática da atividade ilegal e inconstitucional nas
Terras Indígenas Munduruku e Sai-Cinza, mas se omitir intencionalmente, mesmo
diante do reconhecido avanço do garimpo na região, tolerando as infrações
ambientais e até as incentivando”.


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