RASTILHO DE PÓLVORA ESTÁ ACESO

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A FARINHADA





MOMENTO DE TRABALHO, DESCONTRAÇÃO, MOMENTOS ESPECIAIS.


Jacareacanga - Com certeza a farinhada é um momento de trabalho e descontração, que reúne famílias para se produzir o alimento básico da dieta alimentar dos Munduruku, que usam os subprodutos da mandioca para fazerem a conhecida farinha, a massa e farinha de tapióca, beiju, tucupi, e até a crueira para alimentação de animais domésticos e animais da fauna domesticados, como macacos, porcos do mato, antas, e outros.


É um momento de trabalho forte que concentra toda atenção das famílias presa na confecção da farinha, já que para se chegar ao alimento principal, o trabalho árduo passa por diversas etapas, entre as quais, a cata da raiz nas roças familiares ou comunitárias, o transporte em cestos denominados de e'tchu, a acomodação de parte das raízes (mandioca) em tanques com água ou nos córregos para a fermentação, e depois o uso do triturador denominado de catitu, para a outra parte da mandioca; em seguida vem a mistura, a secagem em prensa ou no "tipiti" o uso da peneira para retirar resíduos sólidos, e finalmente a torrefação em um forno que ao final irá produzir de 20 a 30 quilos de farinha puba ou dágua por fornada. Após a decomposição das raízes através da fermentação na água, o produto é levado para um côcho onde é ajudado a a se reduzir a mandioca  em decomposição, pisoteando-se  em cima.

Os trabalhos de duas ou três famílias fazendo a farinha juntas levam sempre de 3 a 6 dias dependendo da quantidade a ser feita; e, além de vários sacos de farinha para alimentar as famílias, grande quantidade de beijus e tapioca são feitas e fartamente distribuídos entre a turma da farinhada.

Muitas famílias antes de se empenharem na confecção da farinha, pescam e caçam para se alimentarem perto das "casas de forno" dando a máxima atenção ao trabalho realizado. Muitas vezes o excedente que praticam é comercializado na cidade de Jacareacanga e no retorno às aldeias os índios compram sandálias, isqueiros, fumos, bombons, panelas, pratos, colheres, refrigerantes e outros produtos industrializados, e nunca esquecem bugigangas para os bekitis.


Decerto, já que está inserido na cultura tribal, que nesse momento de trabalho e produção de alimentos os indígenas acertam e resolvem pendengas, intrigas, fuxicos, e até casamentos, também separações. Em suma: A farinhada dos índios, e o idioma Munduruku são fatores que fortalecem mais a organização social indígena e a cultura tão rica, tão bela, e ainda tão incompreendida pelos Pariw'at.

Recentemente a Secretaria Municipal de Agricultura, visando agregar valores na fabricação da farinha dos Munduruku, com a colaboração de outras instituições entre as quais o Senar, formaram na Aldeia Katõ do Rio Kabitutu, multiplicadores para repassarem o conhecimento da fabricação de uma farinha que apresentou uma qualidade superior tanto em sabor quanto de valor  visual; e que de imediato recebeu a aceitação dos índios capacitados no curso. Tal intenção da Prefeitura Municipal através da Secretaria de Agricultura visa fundamentalmente a produção de renda dentro dos núcleos humanos distribuídos em mais de 110 Aldeias.


O Indigenista e Chefe do Posto Indígena Kaburuá Marcelo Augusto, que ajudou a promover o encontro de capacitação na Aldeia Katõ, também constituiu-se em um multiplicador, e após seu retorno de Brasilia onde foi participar de um Encontro Nacional de Educação Indígena, fará incursões aos principais aldeamentos da Terra Indígena, para ministrar as novas técnicas de se fazer uma farinha de melhor qualidade para consumo e para que o índio possa praticar comércio do excedente de sua produção.

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