domingo, 8 de abril de 2012

À MESTRA, COM CARINHO - II

PARTE - II (final)
MARIA DE LOURDES FREIRE BRAGA - A PROFESSORA
Educação Escolar – O inicio de tudo na região do alto Tapajós
P
ouco tempo depois de estar residindo na Vila, e misturar-se com a sociedade local, foi convidada com 14 anos para lecionar na unica escola mantida pela FAG (Fundo de Assistência aos Garimpeiros) e FAB (Fôrça Aérea Brasileira), pelas professoras Sebastiana e Maria do Márcio, esposas de militares da Força Aerea Brasileira  que trabalhavam no sistema de comunicação aérea da FAB, e que por não existirem professoras na região, mesmo tendo sido levado em consideração que Maria de Loudes tinha somente 14 anos essa foi contratada e inicialmente paga pelos militares. Parte daí informações preciosas que Maria de Lourdes Freire Braga ser a primeira professora de Jacareacanga. Maria Emilia que cede seu nome a Colegio na Sede do Municipio chegara somente após a revolução de Veloso e em todo o transcurso da revolução a pequena Maria de Lourdes  ja lecionava em um espaço cedido pela FAG, e que muito tempo depois  fora contratada pelo municipio e dias mais tarde pelo Estado.
ENSAIO DE GOLPE MILITAR – OS REBELDES VELOSO E LAMEIRÃO
Veloso e Lameirão
Mesmo sem entender muita coisa da evolução politica brasileira que vivia seus áureos tempos de estado de excessão, no ano de 1.956, em sua pequena mesa de mestra com seus livros de professora e a classe contando com pouco mais de doze alunos, professoras  e alunos subitamente foram despertados pela preocupação reinante no povoado  de que algo não ia bem, existindo um clima pesado e aumentou a aflição quando um avião  em varios sobrevoos pela vila pousou na pista de chão batido  e como não era comum esses a professora e alunos se encaminharam às pressas para o campo de pouso alem de toda a vila que ja estava la, para ver o “Bichão” que estrondava com seus motores fazendo a poeira levantar, mais bonito para época foi verificar aqueles homens fardados e armados descendo da aeronave  que causavam admiração e faziam moçoilas suspirar sonhando acordadas. Até o momento ninguem sabia, que os militares eram sublevados ou insurgentes do sistema governamental brasileiro  que queriam a deposição do Presidente da República  recem empossado Juscelino Kubitschek por questões meramente políticas.

Jornal do estado deo Pará, exagerava que Santarém seria bombardeada
Mesmo causando furor no cenário nacional a rebelião  contra o Presidente da República o povoado de Jacareacanga não compreendia o sistema governamental inoculado por motins e a presença de um oficial da aeronáutica como Veloso causava admiração  e pouco tempo depois os militares amotinados estavam familiarizados  com a população  que tambem correspondia ao enlace fraternal, mais radiantes se mostravam ao estarem  bem proximos de uma lenda viva que dentre em pouco viraria para a região: Haroldo Coimbra Veloso, que hoje empresta o nome a logradouros públicos de muitos municipios do Pará. Era a primeira vez que o Brasil tomava conhecimento que no ermo da amazônia, nas selvas do Pará existia uma vila com o nome de Jacareacanga. Era vivido pelo povo nativo e migrante da região, pelos soldados da borracha que o Major Aviador  Veloso  e o Capitão José Chaves Lameirão e alguns  comandados em ensaio de golpe militar  contra o mandatário da nação que tomara posse menos de um mês antes se rebelara contra o regime.
AUDACIOSO PLANO – APOIO AOS REBELADOS
O jovem militar  rebelado Veloso  ostentava a patente de Major-Aviador,  naquela manhã  de fevereiro nublada que prenunciava pancadas de chuvas devido a estação do momento executando um audacioso plano juntamente com meia duzia de militares no campo dos Alfonsos Rio de Janeiro em um voo regular de trabalho desviaram a aeronave e rumaram como insurgentes do regime para a Base Aerea de jacareacanga, que sempre teve sua importancia para a aeronautica como referencia de uma aerovia de navegação e comandava  da pacata vila de Jacareacanga o ensaio de golpe militar, que ja tinha contaminado as localidades de Cachimbo, Belterra, Itaituba, Santarém e  Aragarça. Fato interessante que não somente a  professorinha como todo o povo das localidades que foram contaminadas pela rebelião deram apoio para os rebelados.  

A professorinha se interessando pela epopeia vivenciada em solo da região tempos depois com um giz na mão elevava aos píncaros da gloria a historia de Haroldo Veloso aos seus alunos tecendo informações detalhadas de toda a historia até o exilio de Lameirão e outros para a Boliva a a prisão de Haroldo Veloso no dia 29 do mesmo mês. Maria de Lourdes Freire Braga, através da educação e interação com seus alunos contribuiu para que fosse perpetuado no seio da sociedade Jacareacanguense e região o nome Haroldo Coimbra Veloso como vulto historico relevante importancia para nossa região.   
PARTILHA E SOLIDARIEDADE – IDALECIO MENDES BRAGA
Maria de Lourdes sempre teve como principio a solidariedade humana e compartilhava com os outros seus pensamentos e feitos, dividia entre as pessoas os mimos que recebia  em seu aniversário comemorado pela família em 25 de Dezembro; costumava dizer que era uma data da cristandade e partilhar seus presentes era uma maneira de celebrar o cristianismo e a amizade e tudo que ganhava era partilhado; só nunca partilhou seu coração que esse dedicou a um cidadão de baixa estatura, funcionário da FAG,  de olhos claros e irrequietos que firmavam no horizonte uma busca incessante: O coração da jovem professorinha. Não era fácil se aproximar dessa já que dava atenção primordial por seu trabalho e para aceitar a côrte de Idalecio Mendes Braga, vários litros de querosene por semana se consumiram  na fumegante lamparina  para iluminar mais distante, colocada à soleira da porta pelos pais, para vigiar o casal de namorados, à época mais famosos da Vila, já que os rapazes em sua maioria  suspiravam pela professorinha que fora contratada por funcionários da FAB e FAG, e depois da revolução de Veloso pelo município e depois ainda pelo estado de onde recebera um considerável reforço para a educação que foi a  colega professora Maria Emilia outro ícone da educação no município em toda sua historia.
O CASAMENTO – AS VIAGENS DE MISSIONÁRIOS
Em uma cerimônia religiosa do ano de 1.958 a professora casou-se. Com a presença do Padre Frei Angélico que vindo da prelazia de Santarém com a intenção de fazer vários batizados e casamentos na Missão Cururu, aproveitou a viagem e de passagem pela vila de Jacareacanga fez vários casamentos no barracão comunitário da vila. Frei Angélico fazia essas viagens semestralmente, em companhia de outras pessoas vinculadas aos Franciscanos, e subia o Rio Tapajós em um motor de popa 10-12  percorrendo o Tapajós desde a foz à nascente que era a confluência dos Rios Teles Pires e Juruena, e mesmo com pouca atividade católica na Vila sempre parava à convite da comunidade, para logo depois retomar sua viagem até a Missão Cururu, de onde vinha com sua equipe de retorno à pé, percorrendo os campos e savanas dos temíveis Munduruku até chegar em Decodemo e Kaburuá, para além de levar as boas novas aos indígenas, batizar e casar os indígenas que na verdade nada sabiam sobre esses sacramentos, mas a presença dos Paim era motivo de festas pois traziam à tiracolo fartos quilos de bombons, que  pelo sabor dava até para aguentar os sonolentos e  infindáveis sermões. De Kaburua a viagem continuava pelos campos até chegar  aos igarapés formadores do rio Kabitutu até a Aldeia Porto; de canoa chegavam até a foz que desaguava no tapajós próximo a vila de Jacareacanga.
MILA E DOCA SALES – LOURDES E DECO BANDEIRA –CLARA E PEDRO RIBEIRO
O casal Idalecio e Maria de Lourdes era o mais festejado e em meio a tanta alegria, de uma só vez casaram também Mila com Doca Sales, Lourdes com Deco Bandeira, Clara com Pedro Ribeiro, Rosa Freire com Francisco. Em meio a alegria incontida de se unirem em matrimonio Idalecio e Maria de Lourdes prometeram viver em perfeita harmonia, e tempos depois  recebiam a primeira dos 15 filhos Evanilda e nos anos seguintes vieram Ednilza, Maria do Socorro, Raimunda Evanicy, Maria das Graças, Edevan, Erivan, Elenicy, Idalecio Filho, e Itamara que conseguiram sobreviver na inóspita região e ajudam até os dias atuais a perpetuar em suas mentes a bela historia da mãe. Idalecio que enveredou pela politica sendo eleito vice-prefeito na primeira eleição depois da emancipação e hoje vinculado ao serviço publico municipal como assessor do  Poder Executivo, pontua saudoso a trajetória de sua esposa como companheira, mãe e professora, e destaca que sua esposa já falecida e seus filhos aprenderam a amar tanto a região que criaram todos os filhos em Jacareacanga, e ainda inclui na informação que mesmo os filhos em numero de  cinco falecidos encontram-se sepultados no cemitério local juntos com a esposa.
RECLAMAÇÃO DA FAMILIA – 1988 MORRE A PROFESSORINHA – A PONTUALIDADE
Graça uma das filhas reclama a memória do povo de Jacareacanga e principalmente dos políticos que nunca perpetuaram o nome de sua mãe em um logradouro publico como mereceu Maria Emilia, e com maior ênfase destaca que o inicio dessa acelerada educação no município teve sua gênese  com uma menina de 14 anos vinda do Piauí, que construiu sua historia no município, como uma competente professora, esposa dedicada, mãe exemplar e amiga sincera de todos  e que com sua morte em  5 de janeiro de 1.988, foi sepultado também o amor desmesurado pela arte de educar. Incitava os filhos e alunos à leitura que era uma forma de viajar, e contava que através da leitura antes de vir para o Pará, já imaginava como as coisas seriam porque viajava nessas leituras. Interessante de tudo, acrescenta a filha Graça, que sua mãe passava a semana toda em sala de aula lecionando e nos finais de semana ainda lecionava em sua casa à guisa de reforço nos alunos mais atrasados queria todos em igualdade de condições. Era fissurada na pontualidade e dizia que a pontualidade trazia a responsabilidade que deveria ser o objetivo de todos os seres humanos por um mundo cada vez melhor. Graça mostra toda a decepção da família pelo que considera uma grave omissão dos políticos dentre esses os vereadores que deliberadamente esqueceram o nome de sua mãe, e fala que mesmo que não a tenham conhecido ao menos estudando a historia política do município e a saga de Haroldo Veloso nela encontrarão a existência e atuação na área de educação de sua mãe que é uma injustiça não ser lembrada. Acrescenta Graça, que quando o colégio hoje denominado estranhamente de Carmem Valente foi construído ocorreu farta discussão entre  o corpo de professores e alunado sobre qual nome deveria ser destinado ao educandário e após as discussões ficou decidido pelo nome de sua mãe e depois disso  sem motivos que se justificassem o nome de sua mãe foi preterido por outro nome totalmente estranho à municipalidade.
O DEPOIMENTO DA ANCIÃ BRAZILINA -  A VERDADE NÃO SE PODE OCULTAR
A anciã Brazilina Martins que chegou na região em 1.949, conheceu toda a trajetória da matriarca dos Freire Braga em Jacareacanga, e depõe que Maria de Lourdes não fora somente a primeira professora do município e sim uma mãe para muitas pessoas, e que o gosto pela leitura que estendia para os alunos, seu apego às coisas do bem e a contagiante e incansável luta por educar eram a tônica da mestra. Lembra Brazilina que muitos dos seus filhos foram alfabetizados por Maria de Lourdes que não fazia acepção de pessoas, e que a todos tratava em igualdade de condições diferentes apenas pelo esforço individual em aprenderem. Conclui a anciã que a professorinha tinha por lema que a melhor riqueza que os pais poderiam deixar para os filhos seria o saber e isso sempre divulgava em seu circulo de ação e reuniões com os pais na escola. A verdade não se pode esconder por isso diz Brazilina que não sabe o porquê da primeira professora de Jacareacanga não ter seu nome imortalizado em uma Escola como teve Maria Emilia. Vai mais além Brazilina ao perguntar também o porquê  do professor João Azevedo da barra de São Manuel não merecer tambem reconhecimento por seus trabalhos, e ainda dispara criticas aos prefeitos perguntando quem é Carmem Valente para ter o nome em um colégio, já que desde 1.949 não conheceu quem é essa pessoa e nem sua historia. E por fim Brazilina diz sobre Carmem Valente: Falam que é uma mulher la de Belém que não sabe nem onde é Jacareacanga, e é mãe de  uma funcionaria de um ex-prefeito.
Desde aquele longinquo 1.956, mais de cinco décadas nos distanciam  de uma minuscula vila de pescadores onde gravitavam os soldados da borracha e indios Munduruku à procura de produtos industrializados. Acima a imagem mostra apenas uma parte de Jacareacanga nos dias atuais.
De uma dezena de alunos que Maria de Lourdes começou a alfabetizar, hoje a Secretaria de Educação do Municipio contabiliza quase oito mil nos ensino, fudamental, médio e superior. -E tudo começou com ela, a Mestra eterna MARIA DE LOURDES FREIRE BRAGA - A PROFESSORA.
Escola de 1.956 (Ilustrativa)
Escola 2.012

2 comentários:

Anônimo disse...

Walter,
Parabéns pelo excelente texto e principalmente pelo resgate desta parte importante da história de Jacareacanga!
Grande abraço
Roberto

Darlan disse...

parabens pela historia e iniciativa