RASTILHO DE PÓLVORA ESTÁ ACESO

sábado, 15 de maio de 2010

ELINALDO BARBOSA DOS SANTOS E A FACE OCULTA DA HISTÓRIA

sábado, 15 de maio de 2010

Memória de Santarém
Lúcio Flávio Pinto
Por que, durante muitos e muitos anos, o assassinato de Elinaldo Barbosa, “foi quase que um tema proibido tanto na imprensa como nos meios políticos?” Mais de 40 anos depois, uma resposta a esta pergunta é o que seu sobrinho, Paulo Cidmil, residindo há muitos anos no Rio de Janeiro, procura apresentar neste texto. Ou formular novas perguntas, que tirem o tema do limbo do esquecimento e o recoloque no prumo da história.
Como terceiro prefeito a substituir o dono do cargo por eleição direta, Elias Pinto, afastado da prefeitura de Santarém e em seguida cassado, como conseqüência de um dos mais trágicos acontecimentos da história política do município, Elinaldo parecia disposto a ir até o fim do mandato, em 1970, e a partir daí firmar sua carreira política. Tinha planos de se candidatar a deputado federal. Foi impedido por um atentado que o matou, no gabinete da prefeitura, no dia 15 de fevereiro de 1969. O criminoso, Severino Frazão, foi morto por um soldado da Polícia Militar quando tentava se entregar, desarmado, na companhia de um padre. Foi um ato de violência do militar, ao qual foi atribuída depois perturbação mental (como ao assassino), ou uma execução premeditada, assim como a morte de Elinaldo também foi preparada?

O ASSANINATO DE ELINALDO BARBOSA ESPERA POR UMA RECONSTITUIÇÃO  À ALTURA  DA SUA IMPORTANCIA.
É o que sustenta seu sobrinho neste depoimento, escrito por iniciativa própria. Ele certamente provocará reações indignadas e acusações de que vem tarde e com enredo comprometido pela sua origem. Um acerto de contas fora de época. Além da recuperação da memória do tio por um sobrinho reconhecido. A despeito dessa provável má repercussão, o texto de Cidmil é bastante consistente para não mais permitir que o véu da indiferença volte a cair sobre um dos episódios mais controvertidos e polêmicos desse período. O assassinato de Elinaldo Barbosa espera por uma reconstituição à altura da sua importância. A pedra da frágil sepultura foi retirada da sua campa improvisada. Espera-se que todos que possam contribuam para esclarecer de vez uma história que permanece insatisfatória há quase meio século. Paulo Cidmil não deixa dúvida a respeito. 
Meu pai separou-se de minha mãe quando eu tinha 5 anos, desaparecendo para as bandas do Amazonas. Saímos do Hotel Mocorongo, onde minha família mantinha o hotel em sociedade com um amigo de meu pai, que vendeu a nossa parte ao sócio.

Fomos morar na rua São Sebastião próximo ao cemitério. É a partir dessa época que observo a presença da família de minha mãe em nossas vidas. Aos domingos íamos almoçar na casa de vó Silvia e vô Abdon. Muita comida, muita fruta, açaí, e muita alegria e brincadeira, principalmente por causa da presença de meu tio Elinaldo, sempre atento e pronto a fazer gozação. Colocava apelido, inventava estória e se alguém “pegava corda”, estava perdido. Não escapava nem meu tio Ezenildo, sempre sério, de poucas palavras e menos jogo de cintura para brincadeira e gozação. Era sempre uma grande molecagem e muito riso. Só lembro de ver Elinaldo sério no dia em que trouxe a sua futura esposa, tia Nazaré, para apresentar à família. Foi logo dizendo que era nossa tia e mandando a gente tomar “bença”. Nazaré tratou de nos dispensar da bença, mas para mim, a partir daquele dia, se transformou em uma tia muito querida, pois logo me afeiçoei a ela.

Elinaldo tinha grande afinidade com minha mãe e a partir da separação dela passou a estar mais presente conosco. Era a pessoa da família com quem minha mãe dividia os nossos problemas. Estava sempre pronto a nos ajudar.

Casou em 1965, foi morar na 15 de Agosto muito próximo de nós. Passava quase que diariamente em nossa casa, às vezes nem saia do carro, chamava a mana (como tratava a minha mãe), perguntava se estava tudo bem e sempre nos alertava para obedecer minha mãe e ajudá-la, caso contrário não teria “vesperal” (era como se chamava as sessões de domingo à tarde no cine Olímpia). Elinaldo pagava o nosso ingresso. Nossa tarefa era contar o filme para ele. Observava o encantamento que o filme produzia em nossa cabeça e ria muito de nossa narrativa. Mas se houvesse queixa ou castigo de minha mãe, adeus vesperal do Cine Olímpia.


Elinaldo gostava de musica: Elizeth Cardoso, João Gilberto, Ciro Monteiro, Miltinho, Trio Yrakitan, Demônios da Garoa, Jair Rodrigues, Elza Soares, Agostinho dos Santos, Simonal...
Sua presença era muito constante em nossa vida. Aos domingos à noite, após a missa da Praça da Matriz, nos levava até a Garapeira Ypiranga para comer pastel, canudinho e tomar caldo de cana, ou nos dava dinheiro para que mamãe nos levasse até a padaria Lucy para tomar sorvete.

Nos dias de jogos importantes, como o Ray x Fran, ou de um deles contra o America e Fluminense, ou quando havia jogo com time de fora, Remo, Paissandu, Tuna Luso, Sport Bahia, Madureira, São Cristovão, Bonsucesso, America e Flamengo do Rio de Janeiro, seleção brasileira de amadores (hoje sub 23), Elinaldo passava em casa e nos apanhava para levar ao estádio. Era presidente da Liga Esportiva, promotora dos jogos.

Um de meus programas preferidos era ir para casa de minha tia Nazaré. Lá havia vitrola e muitos discos. Elinaldo gostava de musica. Na sua casa conheci Elizeth Cardoso, João Gilberto, Ciro Monteiro, Miltinho, Trio Yrakitan, Demônios da Garoa, Jair Rodrigues, Elza Soares, Agostinho dos Santos, Simonal, Jorge Ben, Trio Mocotó, Os Velhinhos Transviados e também o pessoal da jovem guarda: Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis, Leno e Lilian, Jerry Adriany, Wanderley Cardoso, Paulo Sergio, Wanderléa, Martinha, Golden Boys, Roberto e Erasmo. Também ouvia as histórias de Belém contadas por minha tia. Veio para Santarém a trabalho, nasceu e cresceu em Belém, tinha muitas lembranças de sua terra. Despertou em mim grande desejo de conhecer Belém.


FOI O PRIMEIRO POLITICO SANTARENO A  LEVANTAR A BANDEIRA DO ESTADO DO TAPAJÓS
Descobri a política em 1966. Elinaldo levou-me em duas viagens da campanha, aos “sítios” (assim eram conhecidas as comunidades de várzea) Carariacá e Arapixuna. Muita laranja, peixe assado com farinha e jogo de futebol. Em outra ocasião levou-me à “colônia” (assim chamávamos as comunidades do planalto). Muita pamonha, beijú, tarubá, café e jogo de futebol. Era um acontecimento festivo e Elinaldo muito festejado. Passei a acompanhar, na medida de minha compreensão, as notícias da política. Elinaldo lia os jornais de Belém diariamente. Eu ia à sua casa buscar o jornal do dia anterior para ler junto com minha mãe, que, apesar de ter pouco tempo, gostava muito de ler.

Ouvíamos rádio, onde era possível acompanhar a disputa Ubaldo Corrêa x Elias Pinto. (Fotos) Ubaldo tinha o apoio dos militares, governo estadual e também contava com o apoio da elite política e econômica local. Elias Pinto, (foto acima) político populista, hábil orador, tinha um discurso apaixonado por Santarém, que emocionava. Falava direto ao povo e teve uma sacada sensacional: associou a sua imagem e a de seu partido ao “Barra Limpa” e a de Ubaldo e seus correligionários ao “Barra Suja”. Eram duas expressões surgiram com a Jovem Guarda. Logo simpatizei com Elias Pinto e passei a torcer por ele. Cobrava de Elinaldo: “pô tio, tu é barra suja”. Comparada à linguagem atual, “barra suja” era como dizer sujou!!! Elias Ribeiro Pinto era um visionário, foi o primeiro político santareno a levantar a bandeira do Estado do Tapajós, no ano de 1950!

O discurso de Elias Pinto cresceu na cidade, subiu o Planalto e impôs uma retumbante derrota a Ubaldo. Elinaldo, mesmo com Ubaldo, foi o terceiro vereador mais votado. Toda a minha família votou em Ubaldo.

Elinaldo estudou na Escola do Comercio, hoje Rodrigues dos Santos. Trabalhou na loja Curiboca, aos 18 anos era funcionário da Souza Cruz, alguns anos depois passou para fiscal da Mesa de Rendas (Secretaria Estadual de Fazenda). Era torcedor e foi presidente do São Raimundo. Foi também presidente de honra do Flamengo da Prainha. Foi o seu envolvimento com o futebol que o levou a presidente da Liga Esportiva e a conhecer o dr. Everaldo Martins, que o levou para a política. Até a época de sua eleição para vereador, a política partidária não tinha maior significado para ele. Nunca dependeu ou viveu às custa de sua atuação política.




A eleição de Elinaldo para presidente da Câmara foi uma alternativa para apaziguar os ânimos.
A eleição de Elias Pinto havia deslocado do poder a elite política e econômica representada por famílias tradicionais, especialmente os Corrêa, que pela primeira vez em muitos anos não estariam no poder ou participando dele. Ubaldo, que havia sido prefeito, era deputado estadual, ficou alijado do poder, mas tinha um ótimo relacionamento com os militares, que viam nele o prefeito ideal. Santarém estava na rota dos grandes projetos – Transamazônica, BR-63 – e era uma base estratégica para a caçada aos guerrilheiros fugitivos, que eram vendidos na mídia como a ameaça comunista. Precisavam de um prefeito colaboracionista. Era o tempo do “Brasil, ame-o ou deixe-o” e “Amazônia: integrar para não entregar”.

Na prática Elias Pinto teve apenas um ano de mandato. Contra si aliaram-se os militares, o governo do Estado e a oligarquia local. Elinaldo não se envolveu no movimento de bastidores liderado por Ubaldo Corrêa para destituir Elias Pinto.

Todo o período em que Jerônimo Diniz esteve prefeito houve resistência e protesto popular. Ele tinha atuação apática, não gozava de apoio popular, seu perfil era o de conchavo de gabinete e parece ter tido problemas de ordem moral para permanecer no cargo. Na maioria das manifestações a mobilização tinha como ponto de concentração a área em frente e ao lado da residência de “Seu” Moraes, empresário que apoiava Elias Pinto, localizada na Rui Barbosa, onde hoje é a Feira da Candilha. Ficava a menos de 100 metros da casa de Elinaldo e de toda a sua família.

A eleição de Elinaldo para presidente da Câmara foi uma alternativa para apaziguar os ânimos. Elinaldo foi eleito com boa votação, era muito popular e não tinha envolvimento com o complô que derrubou Elias Pinto. Gozava da simpatia da maioria dos vereadores e foi eleito presidente da Câmara por unanimidade. Ao aceitar a indicação sabia que teria que ocupar a função de prefeito. Onde muitos viam uma missão difícil devido à resistência popular, Elinaldo viu uma oportunidade política e não se intimidou.

Procurou assegurar o empenho do governador Alacid Nunes antes de sua decisão e durante os cinco meses em que esteve à frente da Prefeitura teve total apoio do governador. Tomou posse já inaugurando uma escola que foi iniciada ainda na administração de Elias Pinto, o colégio Pedro Álvares Cabral.



O envio dos militares de Belém para proteger a Prefeitura em caso de invasão foi uma decisão do governador
Uma semana após a sua posse aconteceu a passeata para retomar a Prefeitura, que culminou com a morte de duas [três] pessoas e diversos feridos, entre eles o deputado federal Haroldo Veloso, que faleceu meses depois devido ao ferimento. Essa manifestação já estava anunciada antes da posse de Elinaldo.

Desse episódio lembro que logo pela manhã alguém veio avisar na casa de meu avô para que Elinaldo não fosse à Prefeitura porque iriam tentar matá-lo. A manifestação teve a concentração no lugar de sempre, ao lado de nossa casa. Lembro de meu avô fechar a quitanda. Chegavam muitas pessoas vindas da colônia e até da várzea, mas em nenhum momento a população nos hostilizou ou se manifestou contra Elinaldo. Vinham bater à porta de meus avós para pedir água, o que já era um costume. Após observar por um período, meu avô abriu a quitanda. Mas nesse dia Elinaldo não ficou na Prefeitura, retirou-se por volta do meio dia.

O envio dos militares de Belém para proteger a Prefeitura em caso de invasão foi uma decisão do governador. Havia a firme determinação do governo militar em não permitir o retorno de Elias Pinto. Elinaldo sabia da posição dos militares. Após a morte dos manifestantes Elinaldo tinha duas opções: se acovardava renunciando à Prefeitura e à presidência da Câmara, assim precipitando a intervenção e praticamente encerrando sua carreira política, ou mantinha-se firme na Prefeitura, acreditando poder reverter a situação. Apostou na segunda opção.

Estreitou o relacionamento com Alacid Nunes indo a Belém quase que semanalmente despachar com o governador. Procurou resolver o salário do funcionalismo, atrasado há meses. Não fez nomeações, levando consigo número muito reduzido de pessoas, cerca de uma dezena. Procurou trabalhar com os funcionários disponíveis no município.

Elinaldo focou dois objetivos: primeiro o entendimento com o governador para poder governar. Segundo, estreitar o relacionamento com a população buscando apaziguar os ânimos e restabelecer a normalidade. Precisava dos recursos do Estado para fazer obras e através das obras chegar mais fácil à população.
  

A violenta ação policial ocorrida na ocasião da passeata para tomada da Prefeitura e  Veloso ferido.
Acordávamos as 06h30min. Às sete íamos para o Colégio Estadual Álvaro Adolfo da Silveira. Tínhamos o hábito de perturbar meu tio para pedir alguma coisa ou às vezes pegar uma pequena carona só para andar de carro. Nesse período quase que não o víamos mais, quando acordávamos ele já havia saído. Estava completamente absorvido pela política, gostou do desafio e de estar prefeito. Antes de ir à Prefeitura percorria todas as obras em execução. Nos fins de semana comparecia a eventos comunitários, sociais ou esportivos na área periférica da cidade. Desfez o aparato de segurança em torno da Prefeitura e passou a receber todas as pessoas diretamente sem maiores triagens. Passou a não ter mais vida social com a família.

Iniciou uma série de obras de aterro e terraplanagem de ruas com o apoio do DER, entre elas Rui Barbosa, Silva Jardim, Turiano Meira, 15 de agosto, também Silvino Pinto e Barjonas de Miranda, que eram dois grandes valões. Asfaltou parte da 15 de Novembro (em mutirão com os moradores). Também a Senador Lemos e a área em frente à Câmara Municipal. Construiu o Colégio Frei Otomar, inaugurado após a sua morte. Fez também loteamento e distribuição de terrenos à população onde hoje são os bairros do Carananzal e Boa Esperança.

A violenta ação policial ocorrida na ocasião da passeata para tomada da Prefeitura e o ferimento que tirou Haroldo Veloso, personagem que além de deputado federal era militar muito respeitado por sua história política, foi um duro golpe, contribuindo para desmobilização do movimento pró Elias Pinto. A postura de Elinaldo, completamente oposta à de Jerônimo Diniz, mais próximo da população, se empenhando e resolvendo o problema de meses no atraso de salários, realizando obras, também contribuiu para que aos poucos a situação fosse entrando na normalidade.

Em dezembro já era possível prever que Elinaldo, pela determinação com que desempenhava o cargo de prefeito, iria ocupar a Prefeitura até o fim do período do mandato de Elias Pinto, que seria em dezembro de 1970. Conseqüentemente seria um sério candidato a qualquer cargo eletivo.



pelo contato que estava tendo com Alacid, planejava, no futuro, candidatar-se a deputado federal.
O fato de manter uma posição de independência com relação aos grupos de Elias Pinto e Ubaldo Corrêa não estava sendo bem visto, principalmente pelo grupo de Ubaldo Correa. Isso pode ser notado pelos comentários irônicos vindos de certos setores da nossa “elite”. Quando Elinaldo anunciou o asfaltamento de algumas ruas, soltaram a seguinte piada maliciosa como forma de impingir-lhe descrédito: diziam que Elinaldo iria asfaltar a cidade com caroços de açaí. Referência clara à atividade econômica de seus pais e à sua provável incapacidade para ser gestor do município. Nessa época a política tinha como veículo de propaganda o boato e a tentativa de ridicularizarão. Essas informações, ao chegarem a Elinaldo, só reforçavam a sua decisão de manter-se independente.

Certa ocasião revelou a seu irmão Ezenildo que Ubaldo por duas vezes havia solicitado um encontro para conversarem e que não atendeu ao chamado dele. Era importante manter distância dos grupos que vinham se digladiando desde as eleições, para que de fato pudesse representar uma alternativa para a população. Outro fato a considerar com relação ao seu distanciamento de Ubaldo: começava a polarização na política paraense entre Alacid Nunes e Jarbas Passarinho. Elinaldo estava muito próximo de Alacid e Ubaldo aliava-se a Passarinho, que, por sua vez, era muito próximo dos generais do Planalto Central.

No inicio de 1968 Elinaldo fez um acordo comigo. Se ajudasse minha mãe e fosse bem no colégio ele me levaria para conhecer Belém. Em novembro eu já estava aprovado, minha tia Nazaré falou com sua mãe para que me recebesse em Belém e no início de dezembro viajei.

De dezembro até fevereiro Elinaldo esteve pelo menos seis vezes em Belém para tratar dos problemas de Santarém. Ficava no máximo dois dias. Eu ia ao aeroporto e voltava com ele até o Hotel Central, onde se hospedava. Ele seguia para os compromissos e eu comprava gibis, jornal e ia ao cinema com o dinheiro que me dava. A casa onde eu ficava era próxima à Praça da Republica. Entre seis e sete da noite eu voltava ao hotel, que também era próximo da praça. Ele ficava no hotel lendo jornais, depois caminhava comigo até a casa de sua sogra. Passava quase o tempo todo me sacaneando porque eu não havia conhecido nenhuma garota e porque nessa época o Flamengo sempre apanhava do Botafogo. Dizia: eu não vou mais te dar dinheiro pra ir ao cinema, tu é muito frouxo, vai pro vesperal e não arruma uma namorada.

Desses encontros em Belém me lembro de três coisas que ilustram bem a sua determinação em investir na carreira política. Em algumas ocasiões ele encontrava com amigos de Santarém e paravam em um bar da Praça da Republica para conversar e beber cerveja. Vi-o mostrar um jornal chamado “O Observador”, que tinha o mesmo formato dos jornais de Belém. Ele estava apoiando o jornal, que seria um veiculo para divulgação dos trabalhos da Prefeitura.

Em outra ocasião disse aos amigos que comentavam sobre uma entrevista sua que a função exigia a toda hora um pronunciamento, coisa a que não estava acostumado. Que iria se dedicar ao exercício da oratória para ter um melhor desempenho nessas ocasiões. Esse papo com amigos ia até 21h30min, quando encerrava a sessão de cinema no cine próximo à praça. Elinaldo despedia-se dos amigos e caminhávamos para me levar em casa. Vinha sempre me sacaneando e eu respondendo, às vezes com palavrões. Em uma ocasião falou uma coisa que só consegui entender muitos anos depois.

Vivia sempre alegre e brincalhão, mas quando falava sério mudava completamente. Disse: olha “seu” porra, tu já ta indo pro ginásio, agora quando voltar tu vai estudar sério, não quero saber só de passar de ano, tu tem que ser um dos melhores da turma, estuda que tu vai morar comigo em Brasília. Só muito depois percebi que ele, talvez até pelo contato que estava tendo com Alacid, planejava, no futuro, candidatar-se a deputado federal.






Os processos foram arquivados, o principal envolvido estava morto
No dia 15 de fevereiro de 1969 acordei cedo e fui ao aeroporto esperar meu tio, que viria para resolver o atraso no pagamento dos funcionários vencido desde o dia 30. Os recursos foram creditados durante a semana e ele não veio. Desci um ponto antes do meu para vir caminhando. Observei vindo, a mãe de minha tia Nazaré, que parecia enlouquecida, andando muito rápido, descabelada, chorando e falando alto sozinha. Na hora achei que havia enlouquecido, senti até medo da situação. Quando me avistou, falou: meu filho, mataram teu tio! Pensei que ela só podia estar louca mesmo. E completou: é, acabou de dar no rádio! Ela estava indo encontrar uma de suas filhas para telefonarem para Santarém.

Sai correndo e encontrei as outras pessoas da casa chorando em torno de um rádio na casa de uma vizinha. Vieram me abraçar. Nenhuma experiência ruim que eu tenha vivido se pareceu com a notícia da morte de meu tio. Não conseguia acreditar, caí num choro incontrolável e só conseguia dizer: é mentira! é mentira!. Tive uma crise de diarréia e vômito, logo a seguir febre. Fui medicado, sedativos anestesiavam meu desespero. No dia seguinte os familiares de minha tia viajaram para Santarém. Eu não quis viajar, não aceitava a idéia de ver meu tio morto.

Elinaldo morreu aos 33 anos. Deixou a esposa grávida e três filhos, que minha tia lutou sozinha para educar e formar. Sua morte mudou toda a história da família. Passamos a nos reunir na doença. Meus avôs mergulharam em profunda tristeza, principalmente meu avô, que chorava muito, perdeu a vontade de viver, quase não saia mais de casa. Desenvolveu doença cardíaca, não queria tomar remédios, quando passava mal era sempre socorrido por minha tia Nazaré e minha mãe. Pedia que não lhe aplicassem o remédio e o deixassem morrer.

Quase todo dia à tardinha ficava no quintal , sempre triste, cabisbaixo, lembrava muito de Elinaldo e chorava. Sempre dizia: esses miseráveis ainda quiseram chamar meu filho de ladrão. Os “esses” de meu avô eram muita gente e ao mesmo tempo não havia ninguém que pudesse ser apontado como o mentor da covardia. O ladrão estava relacionado ao dinheiro desaparecido das contas da Prefeitura.

Foram abertos dois processos pelo regime militar, que responsabilizavam Elinaldo pelo sumiço do dinheiro. A família parecia enfrentar um inimigo invisível que espreitava. Não podia acusar sem provas, se o fizesse, além das conseqüências legais, corria o risco de ver o nome de Elinaldo estampado como ladrão.



Queria fazer história, tinha ambição política. Era o político mais promissor de sua geração

Os processos foram arquivados, o principal envolvido estava morto. Houve pedidos, inclusive de Ubaldo, para que não fosse exposta a imagem de Elinaldo. Também não era possível provar que Elinaldo havia se apossado do dinheiro. Ubaldo foi procurado em Belém por familiares de minha tia, que o informaram que ela estava sendo convocada para depor sobre o paradeiro de um dinheiro de cuja existência ela não tinha idéia. Ubaldo mandou o seguinte recado: diz pra comadre não esquentar a cabeça com isso porque morto não paga conta. Ubaldo era padrinho da primeira filha de Elinaldo.

Elinaldo não era ingênuo, mas era inexperiente na política partidária. Acostumado às disputas da Liga Esportiva, onde foi eleito presidente duas vezes, talvez não tenha avaliado com precisão os enormes interesses econômicos por trás de discursos que pareciam estar empenhados na defesa do interesse público e, na verdade, visam apenas a apropriação do poder ou de um “naco” para defenderem os seus negócios. Na Liga, guardadas as divergências, logo todos estavam lutando por seus clubes, fortalecendo o esporte e a própria Liga.

Viu tudo de forma muito simplista, achou que bastava muito trabalho, realizar uma boa administração, trazer a população para seu lado, que governaria sem maiores problemas. Queria fazer história, tinha ambição política. Era jovem, teria uma carreira longa pela frente e a estava construindo de maneira sólida e com passos muito largos. Era o político mais promissor de sua geração.

O seu não alinhamento foi fatal. O assassino foi o instrumento disponível para ser usado no momento e hora adequada. O matador foi tão vítima quanto a vitima de seu crime.


Por que, durante muitos e muitos anos, esse crime foi quase que um tema proibido tanto na imprensa como nos meios políticos?

Nesse crime quase perfeito, fruto da insatisfação de alguns, que viam o poder público como sua propriedade e extensão de seus negócios, quis o destino que o desenrolar dos acontecimentos teimasse em mantê-los sem o controle do município. Não seria possível destituir o prefeito eleito e entronizar o candidato derrotado. Após a pífia e impopular passagem de Jerônimo Diniz, e diante de uma Câmara desgastada, Elinaldo, por sua neutralidade e popularidade, aparecia como opção.

Ao resolver fazer o seu próprio caminho, Elinaldo selou o seu destino. Os que tramaram a queda de Elias Pinto, na sua insana ambição e certeza de impunidade, julgavam que se Elinaldo era prefeito devia-se ao fato de terem tramado a queda de Elias Pinto. Portanto, Elinaldo lhes devia subserviência. Ele não só não compactuou com a trama como também não atendeu aos seus pedidos. Resolveu, diante da resposta popular à sua atuação à frente da Prefeitura, ser uma opção política para Santarém, fazendo seu próprio caminho.

Sua coragem em manter-se independente soou como uma afronta, aguçando o ódio e a covardia. Não poderia ter um executor mais perfeito para o crime. Severino Frazão tinha um histórico de violência, desequilíbrio, transtorno nervoso, era de fácil manipulação e estava aborrecido com Elinaldo por querer assumir a administração do Mercado Municipal, coisa que Elinaldo lhe disse pessoalmente que não faria, devido Frazão ter atentado contra a vida de um peixeiro. Não foi um crime encomendado, feito por um assassino de aluguel: foi um crime premeditado, no qual os mentores foram induzindo o criminoso através de injeções de ódio e promessas.

A morte de Elinaldo foi a solução para os problemas dos insatisfeitos, que conspiravam por se acharem donos do poder. Logo viria a intervenção, que os recolocaria como protagonistas da política local.

Os criminosos tiveram um dia em que tudo conspirou a seu favor (quando se planeja, as coisas costumam conspirar a favor). O dia do crime coincidiu com a semana de muito dinheiro nas contas da Prefeitura e o prefeito já havia assinado tudo para agilizar os trâmites, uma vez que os salários estavam atrasados. Esse dinheiro que desapareceu foi rateado entre alguns, que logo se tornaram prósperos, transformando-os em aliados de quem desencadeou a ação do criminoso e cúmplices no crime. O dinheiro comprou o silêncio. A conta ficou para o prefeito morto. E sobre isso nada se pôde provar, mas a família de Elinaldo tem a certeza que ladrões existiram, porque nunca viu a cor desse dinheiro.

Mas como todo crime perfeito sempre deixa algo fora do lugar, algumas perguntas ficaram no ar:

Se o criminoso não tinha armas, quem as deu para ele, e por que elas desapareceram após o crime?

Por que a policia atirou em um homem que se entregou desarmado, com as mãos para o alto, acompanhado de um padre, que garantia que ele estava se entregando desarmado?

Por que os padres da casa paroquial, únicos a falar com Severino Frazão após o crime, foram “convidados” quase que imediatamente a se transferirem de Santarém?

Por que logo após o crime espalhou-se o boato na cidade que os padres da casa paroquial haviam sumido com as armas? Que interesse teriam nisso?

Por que o militar que efetuou o disparo contra Frazão foi quase que imediatamente transferido para Belém, sendo afastado para suposto tratamento psiquiátrico e depois voltou à ativa, sendo inclusive chefe de um destacamento em outro município?

Por que a imprensa noticiou que Frazão teve morte imediata, alvejado com um tiro à altura do umbigo, quando sabemos pela declaração de um fotógrafo que ele estava vivo e sendo socorrido enquanto a policia evacuava o local?

Por que esse mesmo fotógrafo, ao fotografar o corpo de Frazão já em sua residência, constatou haver outro orifício na altura do coração?

Por que o fotografo teve o seu material aprendido e inutilizado pela polícia?

Por que imediatamente após o crime, antes de qualquer investigação, se difundiu a noticia que o crime foi fruto da loucura de um homem que reclamava o recebimento de salário atrasado? E por que essa se tornou a versão oficial?

Por que, durante muitos e muitos anos, esse crime foi quase que um tema proibido tanto na imprensa como nos meios políticos?



Os acontecimentos de 68/69 tiveram influência decisiva no futuro político de nossa cidade, com reflexos nocivos até os dias de hoje. Ficamos sem escolher prefeito democraticamente de 1966 até o ano de 1985. Uma população que não exerce a democracia não amadurece politicamente. Perderam os cidadãos do município, perdeu a classe política, mas um político que fora derrotado emergiu das cinzas.

O clientelismo político de Ubaldo Produziu dois exemplares dignos de citação: Antonio Rocha  e Osmando Figueiredo
Após a intervenção dos militares, Ubaldo Corrêa transformou-se no político mais importante de nossa região. Não houve interventor ou prefeito nomeado para o município sem a concordância e benção de Ubaldo Corrêa. Os acontecimentos tiraram de seu caminho político dois adversários difíceis de serem batidos: Elias Pinto, que o derrotou, e Elinaldo Barbosa, que num futuro muito próximo iria disputar os votos dos santarenos numa candidatura a deputado federal. Restou apenas um político de expressão: dr. Everaldo Martins, a quem Ubaldo ajudou a nomear prefeito no período em que o município esteve sob a Lei de Segurança Nacional.

Ubaldo nunca mais teve uma votação expressiva em Santarém, além dos votos que os Corrêa sempre obtiveram através de uma política clientelista secular. Continuou a se eleger graças à expansão dos negócios e da política clientelista da família para outras regiões do Estado, onde passou a obter alguns votos. Manteve-se sempre nos partidos da situação, como é típico dos políticos representantes das oligarquias. Quando não esteve com mandato popular, atuou à frente dos dois principais órgãos de fomento da região, a Sudam e o Banco da Amazônia. Militou na política cerca de meio século, sempre participando do poder ou o exercendo, mas proporcionalmente ao tempo em que esteve participando da política, muito pouco pode ser mencionado como fruto de seu trabalho como legislador ou gestor de órgão público, em benefício da região.

A eleição de 1966 entre um político populista e um oligarca clientelista produziu uma lacuna na política santarena e deixou seus frutos. Seguindo os passos de Elias Pinto, surgiu um político populista chamado Ronaldo Campos. Falastrão, demagogo, bom de gogó e ruim de trabalho. Foi o primeiro prefeito eleito após a intervenção.

O clientelismo político de Ubaldo foi mais fértil. A prática tornou-se a galinha dos ovos de ouro da maioria de nossos políticos. Produziu dois exemplares dignos de citação: 1) Antonio Rocha, apesar de não ter origem política em Ubaldo, seguiu a prática dos Corrêa. Distribui os seus favores através de sua próspera empresa de navegação, que também é uma prestadora de serviços a municípios da região. A exemplo dos Correa, instituiu a política do “naco”; 2) Osmando Figueiredo, fruto direto da política de Ubaldo, importado do Nordeste para aprimorar as técnicas de iludir o eleitor menos informado; afinal, de coronelismo o Nordeste entende; este sofisticou a prática clientelista e outras, mais adequadas às páginas policiais, bastando lembrar a “Operação Faroeste” da Polícia Federal sobre grilagem de terra. Seus negócios não entram na roda para fazer favores ao eleitor. Usa a própria estrutura do município, tendo sempre um órgão público ao seu dispor para viabilizar os seus currais eleitorais no planalto santareno.

A família Corrêa, que há mais de um século é parte do poder em nosso município, é fácil de definir: seus interesses são o interesse público e o público faz parte dos seus interesses.

Como disse Chico Science, “o homem roubado nunca se engana
”. Tem a certeza absoluta que algo lhe foi subtraído, mesmo que essa perda seja subjetiva, como suas perspectivas, sonhos ou alguém que representava um grande motivo para se orgulhar.

Faço deste texto uma declaração de amor à pessoa que foi minha principal referência quando menino, me ensinando que para se ganhar dinheiro é preciso trabalhar, e povoou minha infância de sonhos e alegrias.

Dedico a meus primos Silvia, Sara, Elinaldo e Abdon, que conhecem a história do Elinaldo, marido de sua mãe, mas nada ou quase nada sabem do homem público e não tiveram a sorte e a felicidade que eu tive de conhecer e conviver com o seu pai.
FONTE: Materia publicada originalmente no Estado do Tapajós On line 
blogdoestado.blogspot.com
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Fotos meramente ilustrativas:
Elias Pinto
Ubaldo Correa
Fotos de época em Santarém
Obs. Materia transcrita na integra do 
blogdoestado.blogspot.com

2 comentários:

micheline correa disse...

O militar que efetuou o disparo era lotado em santarem ou em belem na época do fato?

Benjooman disse...

Micheline,

segundo li, o nome do policial que assassinou o Frazao era Raimundo Hércules. Depois do assassinato ele foi imediatamente transferido para Belem. Segundo um contato de Santarem, ele cometeu suicidio.

Alguem aqui talvez possa averiguar essa informac,ao.