RASTILHO DE PÓLVORA ESTÁ ACESO

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A HISTÓRIA QUE NUNCA FOI CONTADA - Parte II

A SAGA DOS BIERI – UMA HISTÓRIA DE AMOR 
IMENSO PELOS ÍNDIOS DO ALTO TAPAJÓS 
Continuação...
A TRADUÇÃO DO NOVO TESTAMENTO/ANTOINETTE SALVA VIDAS
Felizmente depois de tantas dificuldades serem suplantadas, Deus sempre nesses momentos envia seus anjos, um reforço no campo missionário ocorreu com a chegada de duas missionárias norte-americanas da Wikliff Mission,  Marjorie Kroft e Marje Shaffer que além do auxilio na evangelização, realizaram um brilhante trabalho de tradução do Novo Testamento e do livro de Salmos compilado para a língua Munduruku, e ainda traduziram a  gramática na língua materna do Grupo Tribal, e outros trabalhos como registro fonográfico de histórias e várias cartilhas. Sempre se lamentam os Bieri que esse imensurável trabalho dessas benfeitoras missionárias lingüísticas, é quase esquecido e ninguém tem memória para lembrar o quão é importante para o enriquecimento do idioma Munduruku foi o legado deixado pelas americanas. Torna-se oportuno ressaltar  ainda que apesar do avanço do evangelho, poucas etnias indígenas no Brasil tiveram o privilegio de possuir os livros sagrados em suas linguas maternas, bem como uma gramática. Essas audazes criaturas  já com avançada idade física estão na América, em suas pátrias descansado também sentindo que cumpriram com suas participações junto aos Munduruku e a equipe dos Bieri.
O trabalho missionário da familia foi intenso, cheio de perseverança, a luta diária teria que ser feita com eficiência, mas, se questionavam sempre como levariam as boas novas de um Cristo Misericordioso, se os indígenas passavam necessidades básicas, muitas crianças morriam de doenças endêmicas que assolavam a região, malária, hepatites, verminoses, devido isso paralelamente a assistência espiritual viria outra assistência, a contribuição decidida em saúde, com métodos de reeducação de higienização e limpeza, distribuição de redes, mosqueteiros, e depois ainda o investimento na educação escolar. Muito embora a atividade precípua da Missão fosse o espiritual, foi necessário dar condições de sobrevida àquele povo principalmente do conglomerado de Sai Cinza que reunia em seu entorno varias aldeamentos, para que crêssem que haveria um salvador para todos os males que assolavam o grupo Tribal. Como anunciar Bênçãos de um Deus misericordioso, que supriria todas as dificuldades se o povo passava fome, frio e padecia de outros males? -
Foi necessário em ato contínuo a Missionária Edith trazer da Suiça, Antoinette Gass (enfermeira parteira) sua irmã biológica e espiritual, que contribuiu com a nobre obra por cinco anos consecutivos no apoio à promoção de saúde na região indígena, já que nessa época a promoção de saúde por parte do estado inexistia no vale do Tapajós; Antoinette, salvou inúmeras vidas até por necessidade absoluta fazendo pequenas intervenções cirúrgicas dentro da Aldeia. Nessa época as atendentes de enfermagem, conhecida como enfermeiras, contratadas pelos missionários dormiam nas casas dos doentes atentas a qualquer problema, e andavam de casa em casa fazendo levantamento dos problemas; procedimento extinto ou esquecido nos dias atuais da prática de enfermagem, não por estar suplantada tal atenção e sim por falta de compromisso mesmo. Pessoas daquela época em Jacareacanga ainda hoje recordam do trabalho dessa personagem em promoção de saúde que contribuiu por cinco anos com a vida dos silvícolas, salvando-lhes a vida e levando em seu trabalho sua missão paralela: O Anúncio do Evangelho
Todos os medicamentos eram conseguidos na Suiça que vinham em tonéis obrigando o Pastor Johann a fazer uma pequena enfermaria que ainda hoje se mantém  de pé e é usada pela estrutura da Funasa, alguns não sabem e outros já esqueceram que quatro décadas se passaram e ali está a estrutura física edificada por um homem que veio de tão distante para tornar menos difícil a vida dos Indios Munduruku.
FUNDAÇÃO EM SANTARÉM E REGIÃO DE CONGREGAÇÕES E IGREJAS/A CHAMADA PARA A GLÓRIA DO PASTOR JOHANN
O Pastor Johann, porém não se dedicou somente aos índios, enquanto ao seu redor milhares estavam a perecer. Evangelizou o vale do Tapajós e os moradores ao longo da recém construida Transamazônica.  O casal Bieri que foi o pioneiro na região Santarém/Jacareacanga, levou seu amor e destemor na cidade de Santarém aos pontos mais vulneráveis e pobres daquela cidade e  fundaram inúmeras congregações Batista bem como as Igrejas da Floresta, Santarenzinho, Urumarie,  Alter do Chão.  Em Jacareacanga foi fundada por responsabilidade do casal a Igreja Batista bem como a Igreja da comunidade garimpeira de Mamãe-anã onde se estabeleciam muitos índios. Sempre o custeio para compra de terrenos e edificação dessas obras físicas, como não havia donativos dos comunitários eram sempre com recursos próprios do casal, que para isso acionavam os parentes na Suiça.
Johann era asmático e talvez a mudança de clima da Europa para este país tropical, e trabalhando em locais insalubres andando de aldeia em aldeia, fez o nobre Pastor contrair insuficiencia respiratória ocasionada pela cronicidade de uma asma brônquica, e o fez ser contumaz em usar medicamentos para inibir as fortes crises que lhe faziam ir sempre à Santarém para receber tratamento médico; numa dessas idas, em sua casa naquela cidade sempre se movimentando por ser extremamente trabalhador, ao subir em uma árvore para podá-la, sofrera uma queda e fraturou o fêmur, que em decorrência o obrigou a ser transportado para Belém e submetido a uma intervenção cirúrgica na clinica dos acidentados no ano de 1.985. Tragicamente entrou em óbito na mesa cirúrgica com a causa apontada para choque anafilático. A familia contrariada com a imensurável perda acusou o médico de ter negligenciado, já que fora avisado nos exames pré-operatório que o paciente padecia de asma crônica. O Grande benfeitor, talvez o maior ícone da história da verdadeira assistência aos Índios do Vale do Tapajós, jazia inerte com a aplicação da anestesia. A comoção total do povo indígena foi imensa, amigos, irmãos espirituais na Europa todos sofreram muito pela perda irreparável do Pastor e temiam que seu trabalho sofresse solução de continuidade
Jornais da época e revista noticiaram o falecimento do Pastor. Johann Bieri saia da vida dos indígenas da Amazônia prematuramente já que ansiava desde sua juventude trabalhar na assistência e evangelizar todos que tivessem necessidade. Saiu da vida para ficar na memória do povo indígena, que até os dias atuais recordam com saudade e ternura a imagem do “Homem de Deus” Hansi, que com coragem deixou sua pátria para servir ao povo indígena. Mesmo traumatizada pela imensa perda, a esposa agora viúva, desprotegida da presença física e decidida do esposo, estando acompanhada somente de seu filho de dezessete anos Harold, de livre vontade após as exéquias do marido, decidiu o inesperado:
O PROSSEGUIMENTO DA OBRA/ENTRA EM CENA HAROLD BIERI
- A Obra de meu esposo não pode parar, era o que ele tanto queria, Harold e eu   com ajuda de Deus, continuaremos essa obra maravilhosa que é de anunciar as boas novas do Reino de Deus! -Harold com 17 anos nesse dia estava em Belém acompanhando a cirurgia e se preparando para prestar vestibular em ciências agrárias. Era o projeto de Johann se configurando em formar Harold para contribuir em capacitar-se e trazer novos métodos e tecnologias para  substituir o rudimentar trabalho em roças de subsistência dos Munduruku. Johann, não queria que os índios produzissem somente para o consumo, desejava que praticassem excedentes para comercialização, somente assim poderiam comprar produtos industrializados como facas, facões, panelas; mal sabia o pai que seu filho seria mais importante para os Munduruku como aeronauta, amigo, evangelizador, Pastor. Enquanto isso, mesmo tendo a mesma vocação dos pais e irmão, Elizabeth Bieri estava na Suiça estudando, Serviço Social,  era portanto  outro vértice de apoio aos Munduruku que Johann estava preparando. Elisabeth Beer Bieri, não teve a chamada missionária para o trabalho com os índios, mas também é missionária, hoje é casada com Markus Beer, mora na Suiça e mantém financeiramente, atraves de uma instituição fundada por ela e pelo marido um belissimo trabalho na periferia de Belém com menores que sofreram violência e abuso sexual bem como outros trabalhos de ajuda humanitária. Com a morte do pai, Harold sofreu profundamente da ausência e companhia do pai, pastor e amigo e entrou em profunda depressão. Até os dias de hoje ao recordar do “velho Bieri” se emociona. Visita sempre  o seu túmulo no Recanto da Saudade em Belém, onde exprime toda saudade emocionando-se. -É uma saudade que nunca acaba, diz Harold.
Harold Bieri nasceu e viveu parte de sua infância na Aldeia Sai Cinza ocasião que teve que sair para estudar em Santarém onde cursou o ensino fundamental e médio no colégio Dom Amando, e posteriormente entrou em uma escola de aviação, da qual se formou primeiramente em mecânica aeronáutica e depois propriamente em piloto, e hoje é um dos pilotos mais experientes da região amazônica, tendo admiração de outros pilotos por sua conduta e profissionalismo, tendo a marca prudência como marco de seu trabalho que mesmo assim não o livraram de dois acidentes aéreos. O mais recente no final de novembro/2009 quando preparava-se para viajar com a familia para Santarém, e que enquanto deixara a esposa e filhos no Sai Cinza  se preparando para fazerem a viagem, fez um vôo curto até Jacareacanga (cinco minutos de Sai Cinza até Jacareacanga), para abastecer  e irem até uma aldeia próxima para levar o costumeiro apoio que sempre deram aos índios, o avião abruptamente antes de alcançar o aeródromo parou de funcionar o que obrigou Harold com admirável habilidade, segundo colegas de aviação,  efetuar um pouso forçado no pasto de uma fazenda próxima ao aeródromo.
Apesar da habilidade do piloto, ele levou muita sorte porque o local mesmo tendo formação de pasto tem muitas arvores caída e formação de capoeira – Disse um piloto que acrescentou: Não sei como teve sangue frio e habilidade para evitar as árvores maiores e tocos pelo caminho. Felizmente onde jogou sua aeronave era o único local para não acontecer uma tragédia e com vitimas.
A INFÂNCIA DE HAROLD E BETH EM JACAREACANGA/OS AMIGOS/A CATALINA
Os Missionários tiveram dois filhos biológicos Harold nascido na Aldeia Sai Cinza e Elizabeth, nascida em Belém no ano de 1966, deram seus primeiros passos falando a língua Munduruku, e depois o alemão dos pais, e depois ainda o inglês.  Ambos recordam da infância na Aldeia, brincando brincadeiras de índio, nadando, pescando, adquirindo hábitos alimentares como dos índios, saboreando peixes moqueados capturados na tinguejada e  saúva/tanajuras alem do popular chibé  e também recordam dos amigos contemporâneos da época em Jacareacanga onde brincavam de roda ciranda, lembram com ternura e saudades de algumas pessoas de suas infâncias, entre as quais Branca, Chiquinha, Jairo, Vivi, Neguinho, Getulio, Erli,  lourinha,  e outros que perderam de contato para a vida ou para a morte.
Um marco na infância dos filhos dos Bieri além da relação com os amigos nacionais, sem duvida foi o lamentável acidente com um avião da “catalina” da FAB que  de tão devagar em vôos tinha o slogan Devagar mas chega lá” que iniciou-se um incêndio e todos pularam do avião, padres, freiras e Harold e Beth com 8 e 10 anos, permaneceram presos ao cinto de segurança quietos esperando ajuda, felizmente de passagem tentando apagar o fogo, o comandante viu e retirou as duas crianças que mesmo não se apavorando estavam em risco. O Conselho do Pai Bieri colocaram em ação “Não se apavorar com as adversidades”
O SERVIÇO MILITAR/CURSO DE MECÂNICA E AVIAÇÃO/VOANDO NOS CAMPOS DO SENHOR
Após o falecimento do Pai e os duros momentos em estado depressivo, a mãe Edith, teve que mandar para a Europa seu filho para sair um pouco do cenário em que viveu com a figura paterna, já que sentia profunda saudade, e mandou Harold para a Suiça e depois, de servir o exército na cidade de Sion Kanton Wallis no batalhão de artilharia foi para Inglaterra estudar inglês. Após dominar essa língua fluentemente, para prosseguir com a obra missionária de seus pais, fez seminário em Beatenberg (Berna) onde estudou por três anos. Como a saudade da mãe, do Brasil e em particular dos trabalhos com os Munduruku falaram mais alto, retornou ao Brasil, mas antes, vendo que os trabalhos da ação missionária dos Bieri tinham limitações devido a falta de um transporte aéreo, e com promessa de seus familiares na Suiça de comprarem uma aeronave monomotor, entrou em uma escola de aviação conseguindo a habilitação de piloto privado, e depois comercial além do curso de mecânica. Por breve tempo estendeu sua habilidade como missionário em outros estados brasileiros como São Luis, Acre e em outros lugares; não poderia viver longe dos Munduruku, se considerava um desses, já que nasceu entre eles, vivendo como índio na selva amazônica.
Harold com a aeronave de sua propriedade contribuiu abundantemente com a saúde e educação indígena, fazendo retiradas de emergência, transportando funcionários da Funai, seduc, funasa; numa dessas viagens conheceu  a responsável pelo Núcleo de Saúde Indígena no Pará, Márcia Lasmar que viria  ser sua esposa tempos depois e um elo de ligação para a continuidade da missão evangelizadora entre os Povos Indígenas do Alto Tapajós. A atividade principal da aeronave seria para visitas de evangelização na imensa terra indígena entre as aldeias que tivessem campo de pouso, como Missão Cururu, Posto Munduruku, Teles Pires, Katõ, Kaburuá, Rio das Tropas já que por via fluvial os trechos encachoeirados, os pequenos tributários do Rio Tapajós e seus afluentes tornam difícil e muitas vezes impossível a navegação. Muitas vezes o trabalho da Missão Batista sofria solução de continuidade vez que não existiam recursos para abastecimento e manutenção da aeronave o que obrigou o comandante Harold, a fazer vôos particulares integrando a região.  
A historia continua dentro de próximas postagens

6 comentários:

Anônimo disse...

Muito bela a história, não mais evidentemente, que o trabalho admiravel que essa familia fez pelos indios, da para imaginar a coragem desses seres em abandonar seus paises, e entrar na amazônia para trabalhar com indios. Muita coragem mesmo, e muita fé em Deus. Não existem mais pessoas como essas.

Elvio Nery disse...

Conheço um pouco do trabalho desse pessoal com os indios de tanto ver quando viajava para Jacaré, me lembro de certa vez que não só os indios tinham sorte de ter eles como protetores e sim muita gente, lembro quando estava com uma filha doente e precisava seguir urgente para Itaituba e o filho da Edite, tirou um passageiro de seu avião pra levar a minha filha Sabe uanto paguei? Nada, realmente a passagem era paga, mas disse que nada tinha para pagar e ele disse, sua filha vai de qualquer maneira.

Ronildo Pinheiro disse...

Que lindo Valter! parabens

Simone Alencar Brasil disse...

Eu sempre lhe conheci como um habil defensor da causa indigena, mas como escritor realmente não sabia, e voce escreve bem, continue

Simone Alencar Brasil disse...

Eu sempre lhe conheci como um habil defensor da causa indigena, mas como escritor realmente não sabia, e voce escreve bem, continue

Anônimo disse...

Conviví com essa maravilhosa família algum tempo, inclusive morando na casa dos missionários em Santarém. Foram momentos memoráveis, trabalhando nas igrejas juntos com Hans e Edith, Harold e Edmar. iamos sempre evangelizar na Congregação de Santarenzinho, Floresta e Alter-do-chão. Faziamos muitas EBFs, junto do memorável C10 branca com os bancos atrás. Eram momentos de glória e muita devoção ao serviço em prol da evangelização. Tenho muito honra de ter participado dessa família. Nunca os esquecí, e lembro sempre de quando chegávamos chamavamos "Mutter, Vater" bem alto. Deus abençoe essa família abeçoada chamada BIERI.