RASTILHO DE PÓLVORA ESTÁ ACESO

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

EDUARDO AZEVEDO: OSTRACISMO - A QUEDA DA ARROGÂNCIA

Onde se Lê José, leia-se EDUARDO

JOSÉ

E agora José?
A festa acabou,
A luz acabou,
O povo sumiu,
A noite esfriou,
E agora José?
E agora você?
Você que é sem nome,
Que zomba dos outros,

Você que faz versos,
Que ama, protesta?
E agora José?


Está sem mulher,
Está sem discurso,
Está sem carinho,
Já não pode beber,
Já não pode fumar,
Cuspir já não pode,
A noite esfriou,
O dia não veio,
O bonde não veio
,
Não veio a utopia,
E tudo acabou,
E tudo fugiu,
E tudo mofou,
E agora José?


E agora José?
Sua doce palavra,
Seu instante de febre,
Sua gula e jejum,
Sua biblioteca,
Sua lavra de ouro,
Seu terno de vidro,
Sua incoerência,
Seu ódio – e agora?

Com a chave na mão,
Quer abrir a porta,
Não existe porta;
Quer morrer no mar,
Mas o mar secou;
Que ir pra Minas,
Minas não há mais,
José, e agora?

Se você gritasse,
Se você gemesse,
Se você tocasse
A valsa Vienense,
Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse,
Mas você não morre,
Você é duro José!


Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato,
Sem teogonia,
Sem parede nua,
Para se encostar,

Sem cavalo preto
Que fugiu à galope,
Você marcha José
José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade

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